Afinal, que fim levou o Epifânio?
Por Júnior da Cultura
Não sou historiador formado, embora tenha cursado dois períodos da graduação, no sonho que ainda habita meu ser de ser historiador um dia. Infelizmente calhou justamente com o momento em que fui secretário de cultura de Vassouras. Tinha que ler muito, se dedicar muito, e eu não queria fazer o curso por fazer. Queria aprender, entender e não ser apenas um historiador mediano. Enfim, abandonei o curso. Mas não a curiosidade, o hábito de pesquisar de ler, e de me me enveredar pelos meandros da história, sem contudo ter a audácia e a pachorra de me comparar a um deles a quem tanto prezo.
Numa dessas divagações e devaneios, uma história verídica – das que eu mais gosto – me persegue com uma dúvida há muito tempo. Trata-se da insurreição de Manuel Congo, ocorrida nas terras de Paty do Alferes e Vassouras em 1838 quando cerca de 400 escravizados fugiram das fazendas Maravilha, Freguesia e do sítio de Encantos, todas pertencentes ao Capitão-mór Manuel Francisco Xavier. Foi uma fuga arquitetada, planejada, que de certa maneira deu certa, pois nem todos os revoltoso foram capturados, houve confronto, dois jagunços dos fazendeiros que se uniram para ir atrás dos fugidos foram mortos e uma das escravizadas foi pega na base da pancada gritando “É melhor morrer do que ser escravizada novamente”, isso segundo relato de um branco, do alto escalão em ofício enviado ao presidente da província, ou seja, sem muita romantização.
Considerado o maior líder da rebelião ou sabe-se lá bode expiatório, quem vai confiar num processo crime contra pretos naquele período debaixo de pergunta e açoite, Manuel Congo foi o principal condenado, conforme a sentença à “morte natural por enforcamento”. Os autos originais estão nos arquivos públicos do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em Piraí (Já estiveram em Vassouras no Centro de Documentação Histórica durante muito tempo – já digitalizados claro), mas constam também do livro de um grande jurista brasileiro que pertenceu à OAB, hoje já falecido, João Luiz Duboc Pinaud. Nesse livro há o depoimento dos escravizados capturados, inclusive o de Manuel Congo, o de Marianna Crioula e de um tal Epifânio Moçambique, que nem escravo do Capitão-Mór Manuel Francisco Xavier era. Mas foi citado por quase todos como um dos líderes do movimento. E do mesmo jeito que apareceu, sumiu. E não foi enforcado como Manuel Congo. Será que algum historiador aí pode me ajudar? Por que essa lacuna?
Sabe-se por ouvir dizer que ele tinha ligação com a família Ribeiro de Avellar, mas por que ele foi se evolver numa insurreição lá em cima? Porque ele participou efetivamente liderando um dos grupos? Por que ele sumiu nos depoimentos? Por que não foi punido? Por que não se falou mais dele? E onde ele foi parar? Se todos os réus mencionaram ele “e” Manuel Congo como os cabeças da Rebelião, porque só Manuel Congo foi punido? Tem ou não tem caroço nesse angu?
Pelo menos na minha cabeça não faz sentido. É uma incógnita. Um mistério. Não vou sossegar, sendo historiador ou não, enquanto não encontrar pistas, e elementos do que aconteceu com o epifânio, do papel dele na rebelião, porque ele foi citado e sumiu e de qual foi a desse cara. Enfim… E afinal, que fim levou o Epifânio?
(Foto reproduzindo uma comitiva de escravizados levada por capitães do mato. Retirado do Foto do Arquivo Harper´s Weeklv)

Júnior da Cultura é colunista da Revista Vale do Café