TURISMO · CULTURA · PATRIMÔNIO · VALE DO CAFÉ — RIO DE JANEIRO
← Voltar para Notícias Geral

Turismo Cemiterial ou Necroturismo: Mistérios e histórias fantasmagóricas no turismo

Turismo Cemiterial ou Necroturismo: Mistérios e histórias fantasmagóricas no turismo

Modalidade conta histórias inusitadas, mas também valoriza o turismo de experiência, a história e a arte tumular

 

 

 

Existe uma modalidade ou segmento de turismo que não começou a ser praticado recentemente, mas que a cada dia tem crescido mais no mundo e arrebanhado mais adeptos. E o turismo praticado em cemitérios ou o necroturismo, uma modalidade cultural que explora o valor histórico, artístico e arquitetônico de cemitérios, que vamos tratar aqui como necrópoles. Um cemitério pode ser considerado um museu a céu aberto dependendo de quem esteja sepultado ali. E nesses lugares podem haver guias especializados que conhecem as histórias desses sepultados, que na maioria das vezes contam também a história de onde estão localizadas estas necrópoles. As visitas guiadas contam histórias sobre arte tumular, lendas urbanas, túmulos e personalidades que na maioria das vezes viveram ou tiveram relação com os lugares onde estão estas necrópoles.

O necroturismo (ou turismo cemiterial) deixou de ser um nicho mórbido para se consolidar como uma vertente do turismo cultural e histórico. Em 2026, essa prática está alinhada às tendências de busca por experiências autênticas, preservação de memória e apreciação do que se pode chamar de “museu a céu aberto”.

         Trata-se de uma modalidade extremamente forte na Europa e em algumas partes da Asia, onde são integrados aos roteiros urbanos que envolvem parques, museus, centros de arte e outros atrativos. Entre os maiores expoentes do mundo estão o Père-Lachaise (Paris, França), o mais visitado. Abriga túmulos de personalidades como Jim Morrison, Oscar Wilde, Edith Piaf e Allan Kardec. É referência em arte tumular neoclássica. Na América Latina podemos citar o Cemitério da Recoleta (Buenos Aires, Argentina), famoso pela tumba de Evita Perón e por mausoléus de mármore que parecem palácios em miniatura. Existem outros lugares de destaque como Okunoin (Koyasan, Japão), o maior cemitério do país, o Merry Cemetery (Săpânța, Romênia) e o Arlington National Cemetery (Virgínia, EUA), Destino militar de grande relevância política, onde está o túmulo do Soldado Desconhecido e John F.Kennedy.

         No Brasil, a tendência tem crescido cada vez mais e as visitas guiadas oferecidas também, focadas em história da arte, sociologia e personalidades. Uns dos pioneiros foi, claro, o Cemitério da Consolação/SP  fundado em 1858, que se destaca pelas obras de Victor Brecheret e túmulos de figuras como Tarsila do Amaral e Monteiro Lobato. No Rio de Janeiro temos o Cemitério de São João Batista conhecido como o “Cemitério das Estrelas”, onde estão abrigados ícones como Carmen Miranda, Tom Jobim, Santos Dumont e Oscar Niemeyer, só para citar alguns nomes.

         Em Vassouras a história com o começo da Villa de Nossa Senhora da Concepção de Vassouras e Rio Bonito com a construção da Capela-Mor. Em 1834, a mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição designou o terreno localizado atrás da Igreja principal – hoje praça Sebastião de Lacerda – para edificar o cemitério da Irmandade, Nossa Senhora da Concepção.

Por falta de espaço, alguns anos mais tarde o Cemitério é transferido para um sítio maior, que atualmente se localiza ao final da rua Barão de Massambará, na praça Cristóvão Correa e Castro, edificado desde 1848.

Em Vassouras a arte do Cemitério da Irmandade começa em seu portão, todo feito em Adikras, que originalmente foram criados pelos Abrons de Gyaaman, um povo acãs de Gana. Gyaman (Rei Nana Kwadwo Agyemang Adinkra) originalmente criou ou projetou esses símbolos e os chamou de ‘Adinkra’. Os símbolos Adinkra eram amplamente usados em cerâmica, banquetas, etc., pelos Abrons. O pano de Adinkra foi usado pelo Rei de Gyaaman, e seu uso se espalhou de Bono Gyaman para Asante após sua derrota.

Diz-se que os designers da guilda que desenharam este tecido para os reis foram forçados a ensinar o ofício aos Asantes. O primeiro filho do rei Gyaman, Nana Kwadwo Agyemang Adinkra, Apau, que se dizia ser bem versado no ofício Adinkra, foi forçado a ensinar mais sobre os tecidos Adinkra. Relatos orais atestam que Adinkra Apau ensinou o processo a um homem chamado Kwaku Dwaku em uma cidade perto de Kumasi.

A presença de Adinkras em ferragens no Brasil Imperial representa um importante legado da resistência, memória e sabedoria ancestral africana, trazido pelos ferreiros escravizados do povo Akan (Gana/Costa do Marfim).

Esses símbolos, originalmente estampados em tecidos nobres, foram discretamente incorporados em portões, grades e janelas de casarões, igrejas e sobrados, transformando o ferro em um registro histórico de identidade cultural.

A incorporação desses símbolos no ferro forjado, um material frequentemente moldado pela dor do trabalho forçado, transformou a arquitetura em um ato de arte e resistência. Muitos desses desenhos passam despercebidos, mas constituem uma “memória viva” da ancestralidade que resiste ao tempo.

O portão do Cemitério da Irmandade Nossa Senhora da Conceição de Vassouras é um verdadeiro provérbio africano.

 

Sua leitura simbólica diz o seguinte de cima para baixo:

NZOROMMA = Supremacia

NY AME DUA = Arvore de Deus

SANKOFA = Olhe ao passado e Veja

AKOKO NAN = Aprenda com o Amor

NEA ONNIM NO SUA = Aquele que não sabe, pode saber vivendo

ASASE YE DURU = A Terra tem seu peso

EPA = A liberdade é Lei

 

Todos são Símbolos africanos chamados de Adinkra, a leitura dos portões dos cemitérios são Provérbios africanos.

Inclusive as grades redondas e com 16mm, onde representa 1+6 = 7, acredita-se que o número 7 segura o maligno fora do “sítio santo”, não é para o morto não sair, mas para o mal não entrar e tirar a paz de quem ali descansa.
        Além de seu portão magnifico, o Cemitério da Irmandade conta com 548 sepulturas, sendo 1 Cripta do Barão de Campo Belo, 1 mausoléu da família Teixeira Leite, 2 mausoléus oratórios, sendo um da Família Imperial Brasileira e outra da Irmandade Nossa Senhora do Sagrado Coração de Maria, além de 4 Stelas monumentais representando membros das famílias Avellar e Almeida, Werneck e Carvalho, famílias essas que estavam presentes desde a fundação de Vassouras enquanto Villa.

Ainda encontramos Jazigos monumentais, Túmulos verticalizados, Jazigos gavetas, todos esculpidos em mármore de Carrara e armações Vitorianas, com seu ferro bem trabalhado e rico em comunicação simbólica.

O Cemitério da Irmandade Nossa Senhora da Conceição de Vassouras é conhecido também pelo Jazigo perpetuo do Monsenhor Rios, onde todos os anos broca a “flor de carne”, uma flor da espécie Amorphophallus titanum, em formato de coração, que nasce em seu túmulo, sempre no dia de Finados, e desaparece alguns dias depois. Para aumentar o misticismo em torno dessa flor em seu túmulo, a história registra que um dos zeladores do cemitério acimentou toda a lápide, mas que, ao chegar o período do seu nascimento, ela rompeu o cimento, com toda a sua delicadeza e surgiu.
        Hoje o Cemitério da Irmandade Nossa Senhora da Conceição de Vassouras conta com um profissional Historiador, Técnico em Guia de Turismo especializado em Necroturismo, além de Técnico de Conservação e Restauro de Edificações, voltado para Artes Sacra Tumulares, Arquitetura Tumular, o Educador Patrimonial, Adelino Mattos de Almeida Junior, descendente da Casa D’Almeida de Vassouras, uma das primeiras famílias do Valle do Café, ele não só conta a História da Villa de Vassouras desde sua formação por sua família sepultada neste cemitério, quanto explica os simbolismos, arquitetura e importância Histórica para Vassouras de ontem e de hoje dos que ali estão sepultados, sendo possível para os interessados agendar uma visita guiada com ele pelo seu contato, 24.99937-7077 ou diretamente pela Casa Paroquial de Vassouras.

(Com a colaboração de Adelino de Matos D´Almeida Júnior)