Ao longo da história do jornalismo brasileiro alguns meios de comunicação, grandes e pequenos, já utilizaram como expediente este gênero literário denominado “entrevistas póstumas” que consiste basicamente em trazer uma resposta de um personagem que já faleceu respondendo a uma pergunta feita atualmente. Já foi usada como humor, como drama, e até como “revelação” para quem não acompanhou os fatos à época. Vamos aproveitar essa deixa para algumas perguntas aos personagens que fizeram parte da região do Vale do Café, para revelar alguns segredos até então guardados a sete chaves, falar um pouco mais sobre suas intimidades, seus pensamentos sociais e políticos e o legado de cada um deles. Vamos tentar usar apenas o que eles disseram e deixaram documentado. Mas será que vale um pouquinho de ficção ou especulação? Nossos leitores saberão distinguir… Figuras como Eufrásia Teixeira Leite, Marianna Crioula, General Severino Sombra de Albuquerque, Francisco José Teixeira Leite (Barão de Vassouras), Joaquim Breves (O capitão mata gente), Manoel Congo, e muito mais gente que a gostaríamos de ouvir. Você também leitor e leitora pode sugerir, se a gente conseguir contato, vamos entrevistar. E nossa estréia será com o General Severino Sombra, o homem que criou uma Universidade em Vassouras.. Acompanhem:

ENTREVISTA COM GENERAL SEVERINO SOMBRA DE ALBUQUERQUE
Breve introdução
O homem que transformou Vassouras numa cidade rural, com grande potencial cultural numa cidade universitária. Um visionário. Contra “quase” tudo e “quase” todos, uma ideia abilolada aos poucos foi tomando forma, e mudou os rumos do que poderia ser Vassouras hoje, e é muito difícil pensar que não tenha sido para melhor.
Revista Vale do Café – Em primeiro lugar, nos conte um pouco mais com as suas palavras sobre quem é Severino Sombra de Albuquerque
General Severino Sombra – São tantas histórias, tantas memórias, tanta coisa pra contar que fica difícil responder tudo numa pergunta só. Mas vamos lá. Nasci em Maranguape, no Ceará, no dia 08 de junho de 1907, filho de Francisca Sombra e Vicente. Meu nome é Severino Sombra de Albuquerque, Sombra por parte de mãe e Albuquerque pelo lado do pai. Mas como não foi criado por meus pais, fui criado pelo meu avô até os 3 anos de idade, o Coronel Joaquim José de Souza Sombra, que morreu aos 92 anos. Depois fui criado pela minha tia Marocas, a quem tive como mãe e meus tios. Meu avô exigiu que eu fosse criado no solar dos Sombra por ter sido o primeiro neto a nascer lá, o que foi muito importante para a minha formação como homem e como ser humano. Passei a ser o Sombrinha, fui aluno fundador no colégio dos irmãos maristas e depois fui pro colégio militar em realengo. Aos 14 anos tinha uma certa cultura que muito adulta não tinha adquirido ainda.
Revista Vale do Café – E ao que o senhor atribui isso? À disciplina do colégio Marista?
General Severino Sombra Pode ter influenciado um pouquinho sim. Inclusive tia Marocas, a quem eu tive como mãe também influenciou. Mas aconteceu um fato muito curioso na minha vida quando eu ainda tinha 7 anos de idade, meu tio João Sombra, que se formou em direito, foi para o Amazonas, naquela febre do movimento da borracha. Dizem que após comer uma peixada e nadar no rio teve uma congestão e ficou paralítico de um dos lados. E passou a viver em uma cadeira de rodas. Meu tio João Sombra gostava muito de estar por dentro das novidades, e então eu lia muito pra ele. Passei a ler para o tio João, os livros da casa, as revistas, e os jornais, então comecei a viver lendo. Lia de tudo o tempo inteiro. E passei a gostar daquilo. E aí veio a guerra. Eu tinha 7 anos quando estourou a primeira grande guerra. Meu tio Luiz era major nesse tempo, meu tio Luiz mandava as revistas com o noticiário da guerra.
Revista Vale do Café – Daí então que surgiu seu interesse pela carreira militar?
General Severino Sombra – As revistas militares me fascinavam, eu fui me apaixonando por elas, contando pro João as batalhas no front, fui me apaixonando pelos contos militares, as narrativas da guerra e fui me apaixonando também pela vida militar e resolvi seguir a escola militar.
Revista Vale do Café – Parece que na vida do senhor tudo confluiu, a política, a carreira militar, a paixão pelo conhecimento, gostaríamos de saber um pouco mais sobre seu envolvimento com o movimento trabalhista?
General Severino Sombra – Na verdade eu era um católico apaixonado, ainda quando cadete eu já tinha participado no Rio do movimento de renovação católica, iniciado por Jackson de Figueiredo, e com a morte de Jackson de Figueiredo, Tristão de Athayde (Alceu de Amoroso Lima), eu tinha muito contato com Alceu, nós nos correspondíamos, quando cheguei no Ceará como aspirante criei a folha dos novos, como um órgão do pensamento da revolução católica, colaborava no jornal católico do nordeste, Mas não aderi por exemplo à revolução de 30.
Revista Vale do Café – Então de onde e como surgiu a verve política?
General Severino Sombra – Justamente do movimento social cristão. Foi a partir dele que lancei o primeiro movimento trabalhista no Brasil. Comecei o movimento pregando essas ideias nos grupos operários e fui criando outras associações e mais associações e chegamos a ter quase 100 associações operárias no Ceará. Aí fomos para Pernambuco, para o Pará, Paraíba, então me veio a ideia de transformar o movimento de regional para nacional, criar a legião brasileira do trabalho de caráter nacional para que ele fosse o condutor desse movimento em todo o Brasil, mas ele disse que simplesmente não podia fazer isso porque Dom Sebastião criara a ação católica e o havia convidado para ser o secretário ele então me sugere que eu entrasse em contato com um jornalista com um jornal chamado a Razão esse jornalista dentro das nossas ideias e quem era esse homem, Plínio Salgado Fui então a São Paulo conhecer e conversar com o Plínio, para que ele fosse o nosso movimento trabalhista no sul do Brasil. Plínio me pediu um tempo para organizar as ideias e organizar mais pessoas. De modo que passaram-se alguns meses e nada de o Plínio dar retorno. Houve um momento que eu disse, Plínio, não há mais tempo para esperar para lançar o movimento trabalhista nacional. Então combinamos uma data, 9 de julho de 1932. Ora o que acontece em 9 de julho de 1932? Explodiu a revolução constitucionalista em São Paulo? Eu fui o único a chegar no Rio de Janeiro.
Revista Vale do Café – Até então o senhor não tinha aderido ao Movimento Integralista?
General Severino Sombra – Pelo contrário, eu ainda estava me correspondendo com Plínio Salgado nas tratativas de uma união de nossos movimentos e cheguei a receber uma carta dele dizendo que entendia a minha ansiedade e pedindo para controlar meu ímpeto por uma questão estratégica. Mas não havia mais tempo.Precisávamos lançar um movimento trabalhista nacional. Cheguei a entregar nas mãos do senhor Ministro do Trabalho um projeto de organização sindical das classes e profissões do país. A situação no nordeste era calamitosa. Nesse período fui exilado por conta do movimento da legião. Fui para Portugal.
Revista Vale do Café – E toda essa movimentação acabou levando o senhor ao exílio em Portugal? Pode nos contar um pouco desta parte de sua vida?
General Severino Sombra – Claro! Com a Revolução eclodindo em São Paulo, voltei imediatamente da capital federal (Rio de Janeiro) para o Ceará. Acreditava que o povo cearense deveria aderir também de forma democrática, era nossa chance de fazer parte de algo maior, Mas infelizmente, me decepcionei. O povo cearense não acreditou nem nas minhas ideias e nem na revolução. Voltei sozinho ao Rio de Janeiro. Tão logo cheguei fui abordado por oficiais do Exército brasileiro e fui detido. Exilado pela ditadura segui para o estrangeiro com a consciência serena e forte. Sacrifiquei-me para dizer ao Norte e ao Ceará a verdade que o governo ditatorial procurava criminosamente ocultar. Honrei assim a confiança que em mim depositaram os moços e as classes trabalhadoras. Não fossem as lágrimas de uma mãezinha adorada e de uma querida noiva, que eu levo no coração, até seria com a mais pura alegria que eu partiria para o exílio. Tamanha é a fé patriótica que me anima. Traíram ao Brasil todos aqueles que colaboraram com esta ditadura que vai levando o país à anarquia. Era 9 de abril de 1932. Segui para Portugal no Navio Pedro I onde iam os militares e outros tidos como perigosíssimos.
Revista Vale do Café – E como foi o exílio em Portugal?
General Severino Sombra – Me instalei num modesto quarto de um velho sobra, cuja proprietária era uma senhora de bastante idade. Devido aos poucos recursos que dispunha fez uma única viagem em Portugal. Fui até Coimbra. Tinha grande curiosidade de conhecer a secular universidade onde estudaram grandes personalidades. Fiquei encantado com a vidada da pequena cidade gravitando em torno da universidade. Percorri monumentos, grandes casarões e uma capela, todas cobertas com ouro brasileiro. Lembram-lhe de algum lugar? Foi uma das primeiras vezes que me veio à cabeça a ideia de criar uma Coimbra em uma pequena cidade brasileira. Em novembro de 1933 retornei do exílio e fui anistiado.
Revista Vale do Café – Foi nesse momento que o senhor aderiu ao movimento integralista?
General Severino Sombra – Não foi bem uma adesão. Já havia conversado e me correspondido com Plinio. E a ideia era fundir nossos movimentos para expandi-lo e crescer para todo o Brasil. Mas na verdade me decepcionei muito com o integralismo e com o proprio Plinio. Plinio em sua passagem pela Europa teve contato com países ideias fascistas e quando retornou ao Brasil teve toda a liberdade para implementa-las inclusive dentro do quadro de pessoas que faziam parte do movimento que haviamos criado na legião. E eram ideias com as quais não coadunávamos de maneira alguma. Ideias autoritarias e fascistas. O Sr. Plinio aproveitou enquanto eu estava no exilio para arrebanhar adeptos do nosso movimento no nordeste para a Ação Integralista Brasileira. Fui traido tambem por alguns companheiros e tive meu nome usado. Foi um momento muito ruim e ganhei muitos inimigos por não compactuar com aquilo tudo que estava acontecendo e um movimento que estava tendendo ao crescimento. Ganhei muitos inimigos por causa do rompimento mas não poderia continuar conivente com aquilo. Cheguei a escrever uma nota na qual dizia que para conhecimento das organizações operárias ligadas ao Integralismo, faço publico, com as responsabilidade moral e intelectual de lider da Ação Integralista Brasileira e fundador da Legião Cearense do Trabalho, que era absolutamente contrario ao sentido de nosso movimento revolucionário integral, qualquer manifestação a pessoa ou atos politicos que estivessem fora dos quadros da nossa organização. Cai numa armadilha, sai enfraquecido, mas segui em frente de cabeça erguida e dei a volta por cima.
Revista Vale do Café – Vamos então mudar de assunto. O importante é que o senhor se manteve fiel aos seus ideias. E a ideia de uma Coimbra aqui no Brasil, o senhor seguiu procurando uma cidade? como isso se deu?
General Severino Sombra – Sabe que não fiquei procurando uma cidade especificamente? A coisa se deu mais ou menos assim. Um dia recebi um convite de um amigo que era presidente do sindicato dos empregados da Light e me convidou para passar um fim de semana na Colônia de Férias da Light que era próxima de Vassouras. Não pode recusar o convite e fomos eu e minha esposa Ilka para a colônia. Mas já havia ouvido falar em Vassouras e estava ansioso por conhecer a cidade, e chamei Ilka minha para dar um pulo até lá já que estávamos bem próximos por uma estrada estreita de terra. Iriamos até lá até o fim da semana. E fomos nós até Vassouras.
Revista Vale do Café – E qual foi a sua primeira impressão da cidade
General Severino Sombra – Foi de um ar puro. Logo na descida que chegava na cidade pela estrada de terra estreita se encontravam eucaliptos que exalavam um aroma refrescante, morros verdes cheios de pinheiros em meio à cerração da manhã. Seguimos admirando a beleza natural da região. Avistei a cidade cercada por morros, estava num vale. Até então nenhuma cidade do estado havia me encantado tanto como esta. Chegando na cidade encontrei a praça principal com seu enorme chafariz centralizado e uma belíssima igreja no alto da colina, árvores centenárias, palmeiras imperiais frente aos palácios municipais, casas e prédios históricos compondo o entorno como que emoldurando um quadro de proporções perfeitas. Ficamos admirados com tamanha beleza.
Revista Vale do Café – E quando deu aquele estalo e pensou, aqui será o lugar ideal para a Coimbra brasileira?
General Severino Sombra – Foi amor a primeira vista mas não foi de uma hora pra outra. Por intuição pensei logo que este seria um lugar perfeito para a construção de uma universidade Mais tarde escrevi uma carta para justificar os motivos da minha intuição e da intenção. Mas repito que no inicio foi apenas uma intuição. E então passei a frequentar Vassouras todos os finais de semana. Imaginei que seria fácil dadas todas as condições, mas não foi tão fácil assim. Houve muita luta, muitas barreiras, mas com muito diálogo, muito convencimento, e a ajuda de muita gente, enfim, nós vencemos as resistências e conseguimos.
Revista Vale do Café – E o que foi mais difícil General?
General Severino Sombra – Muitos fatores jogavam contra nosso sonho. Havia muitas manifestações contrárias dos próprios moradores, inclusive na alta sociedade, entre os empresários, a imprensa, chegaram a ponto de no carnaval realizarem um enterro simbólico da medicina no carnaval. Diziam que a vinda da medicina para Vassouras tornaria a cidade num lugar sem lei, com muitas badernas, assim como aconteciam nos grandes centros onde existiam universidades. Por muitas vezes isso me desmotivou. Pois se eu sequer conseguia o apoio dos moradores, como faria? Mas não deixei me abater.
Revista Vale do Café – O Senhor disse que escreveu uma carta elencando os motivos. Como conseguiu vencer as resistências?
General Severino Sombra – Não foi bem uma carta. Foi uma espécie de manifesto. Foi uma das primeiras coisas que fiz, elencando os motivos pelos quais havia escolhido Vassouras para construir uma Universidade. Um documento chamado “Declaração da escolha pela cidade de Vassouras”. E um documento bem explicado, feito a partir de minucioso estudo, a escolha de Vassouras, antigo emporio do comercio cafeeiro regional, ao tempo da escravidão, chamada a “cidade dos barões”mas posso elencar aqui os principais pontos. Em primeiro lugar pelo fato da cidade se situar a margem da então BR 116 (hoje Rodovia Lucio Meira, 393), que liga a Presidente Dutra, em Barra Mansa até a Rio Bahia, Rio, Belo Horizonte e RIo Brasília, Depois porque não constitui um centro industrial, com grande pureza no ar e tranquilidade no ar, depois por conta de seu patrimônio predial e as várias mansões senhoriais construídas pelos Barões do Império, o que facilita a instalação das unidades de uma universidade
Revista Vale do Café – Além desse manifesto, quais estratégias foram utilizadas para quebrar as barreiras?
General Severino Sombra – Comecei a procurar algumas pessoas individualmente a conversar. Parei de vir apenas aos finais de semana para Vassouras e aluguei uma casa aqui. Tive a sorte de comprar os materiais de construção com uma pessoa que me ajudou muito que foi o senhor Nilo Carvalheira que virou meu amigo, me abriu as portas do Rotary Club e me lembro de ter sido indicado por ele para dar uma palestra sobre Universidade. Quando disse que queria construir uma universidade aqui fui alvo de certa zombaria mas também de alguns aplausos. No plano formal constituímos também algumas frentes, uma delas as quais considero uma das mais importantes, não por sua oficialidade mas por seu poder de mobilização e engajamento.
Revista Vale do Café – E quais foram essas frente?
General Severino Sombra – A primeira delas e a mais importante foi um comitê formado só por mulheres, pró criação da universidade, mulheres com influência na sociedade e que se engajaram após a reunião no rotary club e outras reuniões e conversas que tivemos. Elas acreditaram nas minhas palavras e no potencial de uma universidade em Vassouras. E me ajudaram a convencer outros desacreditados. A partir disso nos movimentamos oficialmente. Criamos a Demos início ainda em 1966 a uma campanha que resultou na criação da Sociedade Universitária John F. Kennedy (SUNEDY), entidade destinada a arrecadar fundos para a constituição do patrimônio indispensável à fundação da universidade. Paralelamente criamos com a presença do Governador Jeremias de Matos Fontos na Câmara Municipal em 29 de Janeiro a Fundação Universitária Sul Fluminense (FUSF), entidade filantrópica sem fins lucrativos que depois passou a se chamar Fundação Educacional Severino Sombra. A Faculdade de Medicina foi inaugurada em 1º de julho de 1969. E depois veio todo o resto que a gente pode contar em muitas histórias ainda. Mas agora quem pergunta sou eu, já imaginou Vassouras sem a Universidade?
FONTES:
Retrato de Um Nacionalista – Eduardo Lebres Moura
A Fusve e a Transformação de Vassouras/RJ da Economia Cafeeira à cidade universitária – Jesimar da Cruz Alves
Passos de uma Trajetória Razão e Emoção – Vera Maria Cordilha Porto.