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Por quê Zelito Viana?

José Luiz Junior (Junior da Cultura)
José Luiz Junior (Junior da Cultura) Cultura e Turismo

 

Criamos um Cineclube nos fins de abril de 2026, homenageando o monstro sagrado Zelito Viana, que veio nos prestigiar pessoalmente e assinou nosso regimento como presidente de honra. Que orgulho! A ideia foi inserir a inauguração do Cineclube dentro de um evento tradicional da região chamado Café, Cachaça e Chorinho, mas qual seria o mote?. A grande Vera Matos, educadora e esposa de Zelito,que muito contribuiu com essa empreitada, deu a dica na mosca: por quê vocês não exibem “Villa-Lobos uma vida de paixão”.? Foi o mote perfeito. Após a exibição do filme, dois grandes músicos da região, Alexandre Koy e Rafael Persan apresentaram o choro número um do Villa e o clássico trenzinho do caipira já que a estreia do cine foi na Antiga Estação Ferroviaria de Vassouras. Tudo combinou com tudo.

Casa cheia, Zelito e Vera presente, integrantes da Mapa Filmes do Brasil, sucesso total na inauguração, tudo caminhando. Mas o zum zum zum, não parava. Dava pra escutar aqui e acolá. por quê Zelito Viana? Quem é Zelito Viana? Por que não batizaram o cine de Eufrásia Teixeira Leite? Ouvidos moucos

Havia ali quem conhecia Zelito de nome muito bem, mas havia também (infelizmente) quem nunca houvera falar dele. Após a exibição do filme, um primor, do cinema nacional aplausos gerais, de quem conhecia e quem não conhecia. Marcos Palmeira representava o Villa mais novo e Antônio Fagundes o Villa mais velho, com a participação de outros renomados atores no filme. Não poderia haver título melhor para o longa. Uma vida de paixão. Uma paixão que nunca morreu e nunca morrerá enquanto sua música estiver viva.

Depois da exibição e das fotos  alguém teve um pouco mais de coragem de chegar até mim e perguntar não só quem era Zelito Viana, mas o porquê da homenagem a ele. Respondi humildemente que em primeiro lugar Vassouras não era um berço de cineastas, e não havia ninguém tão icônico assim que pudéssemos batizar o cine com todo o respeito a quem já se enveredou por esses caminhos aqui no interior do Vale do Café, e a gente até conhece alguns apaixonados, mas o nome de Zelito ficou na minha cabeça durante muito tempo e o motivo especial era a mudança de paradigma que achávamos que o cinema e o audiovisual deveriam ter por aqui também inspirados no que Zelito e a galera do Cinema Novo fez. Vassouras ja teve um cinema super frequentado, a maior atração da cidade. Já foi cenário para gravação de diversas novelas, filmes, minisséries e inclusive “Meu pé de laranja lima” foi gravado aqui. Se revirássemos bem o baú, tinha muita gente pra homenagear. Mas desde que o cinema virou igreja Universal a gente ficou umas boas décadas órfãos de uma sala profissional de exibição. Dois shoppings abriram com cinema na cidade anos mais tarde, mas os dois shoppings faliram e os cinemas fecharam. Ate que nos idos dos anos 2000 um novo espaço abriu com um cinema que aos trancos e barrancos está aberto até hoje e em funcionamento. Que bom!

 

Mas os cineclubes são mais artesanais, tem menos preocupações com as questões comerciais, e mais liberdade poética. E não pensem que são só para cinéfilos, apaixonados por cinemas e intelectuais. Pelo contrário, é pra aproximar o povo do cinema. E aí Zelito ganhou de novo, de lavada na homenagem. São destinados para quem quer descobrir que o cinema é muito mais do que um projetor passando um filme na tela. É poesia, é música, é diversão, arte, introspeção, descoberta, é resistência, luta, é vida e morte (Severina) e é a revolução. Por isso Zelito Viana. Ele foi o cara que pegou na mão de Glauber Rocha e de outros tantos visionários e redescobriu o cinema no Brasil.

  Para algumas pessoas tive que explicar com certo constrangimento que  Zelito Viana, era irmão do falecido humorista Chico Anysio, marido da Vera Matos, educadora e integrante da Mapa Filmes do Brasil e pai do ator Marcos Palmeira (aquele mesmo que fez pantanal na globo e depois foi o Zé Leôncio na Globo) e da Betse de Paula, cineasta e roteirista.

Já para quem tinha um pouco mais de compreensão, me orgulhava em dizer que Zelito Viana era um dos verdadeiros criadores do Cinema Novo no Brasil junto com Glauber Rocha, Paulo Cesar Saracenni e outros grandes do cinema nacional. Não é nenhum exagero dizer que o Cinema Novo esta para o cinema nacional assim como o modernismo esta para a literatura e as artes plásticas, embora em épocas diferentes. Mas as ideias de transformação estética e ideológica partem dos mesmos princípios.

Segundo a Academia Brasileira de Cinema a Mapa Filmes do Brasil A Mapa produziu dois dos dez maiores filmes brasileiros de todos os tempos: Terra em Transe de Glauber Rocha e Cabra Marcado para Morrer de Eduardo Coutinho. Além destes filmes, a Mapa produziu mais de duas dezenas de outros em parceira com alguns dos maiores Diretores de Cinema no Brasil.

Vale dizer que muitos dos filmes da Mapa Filmes representaram o Brasil em festivais icônicos pelo mundo e em muitos deles sairam premiados, inclusive em Cannes com o  Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, vencedor do Prêmio de Direção no Festival de Cannes. Zelito Viana é o cara! Uma figuraça, como diria seu filho! E também um gênio!

E nós temos muito orgulho de levar seu nome. Com menos de um mês de criação já fomos selecionado para a 15° MCDH DIFUSÃO: Direitos Humanos e Emergência Climática – Rumo a Um Futuro Sustentável, onde fizemos uma sessão com a exibição de 4 filmes super interessantes no Centro Cultural Cazuza em Vassouras. E com o público lá! E a mensagem de Zelito também! Sigamos! Nossas seções são mensais, quem quiser ficar por dentro saibai mais em @cineclubezelitoviana Qualquer dica de filme ou ideia que queira dividir conosco fique à vontade. Em breve mais novidades.

Por José Luiz Júnior (Júnior da Cultura)

José Luiz Júnior, é produtor cultural, jornalista, livreiro, turismólogo e curioso. Nascido em Vassouras no Vale do Café, Estado do Rio de Janeiro, é também conhecido como Júnior da Cultura.